a coisa pública


10/10/2009


Um santo na minha infância

 

Eu conheci um santo. Ele se aproximava de nós e imediatamente a paz se fazia. Ele passava sem nada dizer. Simplesmente passava. Nós continuávamos a brincar, na maior tranqüilidade.

 

Um dia o santo foi acusado de sei lá o quê. Como criança, eu não podia me inteirar do acontecido. Só sei que parte da cidade virou a cara pra ele. Até tentativas de linchamento ele sofreu. E não dizia nada em sua defesa.

 

Em casa, a conversa sobre o fato era velada. Mamãe pedia pra papai não comentar nada diante de nós. Mas aqui e ali se pegava pedaços de conversa.

 

Um dia acordamos com a notícia que o santo seria executado. Tinha pena de morte na minha cidade? Pelo jeito, sim. Talvez tenha sido instaurada só para o caso do santo. A parte da cidade que acreditava na santidade do santo fez o maior barulho: protestos, passeatas, manifestações violentas. Teve gente que fez até greve de fome. A outra parte da cidade, a que queria a condenação do santo, fez festa o dia todo, estourou foguetes, fez churrasco, cantou e dançou até a hora da execução.

 

Ninguém nunca soube mesmo se ele era santo. Pra mim era. Só com aquela passada que deixava a gente sem pensar em briga. Agora, depois de 30 anos de sua morte, ao passar pela cidadezinha que deixei aos doze anos, o túmulo do santo continua visitado diariamente. A sepultura está sempre com flores novas. E os descendentes da parcela da cidade que festejou sua morte juram que ele é santo mesmo. E faz cada milagre!

Escrito por Ronaldo Rony/Ronaldo Rodrigues às 11h48
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– Mingaaaaaaaaaaauuu quieeeeeeeeeeeeeeente!

Havia quem dizia que seu Alfredo não morava em lugar nenhum. Era um ser encantado que saía à noite com seu carrinho de mão. A garotada fazia a festa. As rodas do carro de mão rangiam sob o peso dos três panelões cheios do delicioso mingau de milho. A voz de seu Alfredo enchia aquela rua suburbana dentro da madrugada.

– O senhor não tem medo de assalto, seu Alfredo? Ele dizia que, por causa do seu grito, os anjos da guarda ficavam acordados e o protegiam.

         – Até apareceu um ladrão uma noite dessas aí. Mas eu dei um pouquinho de mingau e ele desistiu de me roubar. Ficou meu freguês, não deixa ninguém mexer comigo e ainda livra a cara de todo vendedor ambulante, só por minha causa.

Seu Alfredo enchia a cuia. Pra muitas pessoas aquele mingau era o jantar, a ceia, o lanche da madrugada. Aquele subúrbio era lugar de gente muito pobre. Minha família não era a mais pobre entre elas e papai podia até bancar mingau pra uns vizinhos que tinham menos que nós. Íamos pra cama assim que terminávamos o mingau. E enfrentando o frio da madrugada, lá ia a voz de seu Alfredo, já por dentro dos nossos sonhos:

 –Mingaaaaaaaaaaauuu quieeeeeeeeeeeeeeente!

Escrito por Ronaldo Rony/Ronaldo Rodrigues às 11h48
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Codinome Bette Davis

 

Ela tem os olhos de Bette Davis. Los ojos de Bette Davis. The eyes e uis de Bette, the best. Ela é assim: milhares de olhos olhares de sinuosas serpentes insinuantes em suas performances e nuas nuances. Se multiplica e se aplica picante. Várias e velozes vozes, faces-fases, multifacetados disfarces de um ultra-travesti que faz do falo algo que fala, como galos gargalos gargalhando na goela. Músculos másculos maiúsculos fêminos singuplurais, deslumbrando a penumbra do nosso decadente quarto crescente, indecente, incandescente, transcendente. Cabelos roçando rolando do crânio subcutâneo, cruzando ares & bares como alados cavalos lunares, plumares, por mares nunca por Dante navegados. Com suas garras, retalha e metralha o cortiço e a cortiça dos cigarros a todo instante deflagrados. Bette Davis, a mulher de minha dúvida, dádiva de minha vida, dividida, endividada, individual, dualizada. De seu submundo, ela me subjuga, subsuga, subsuja. A boca desse bardo conturbado sibila a sílaba, a palavra lavrada, desferida contra o alvo aberto descoberto da ferida. E goza o gozo azul-lilás da rosa.

 

Ela tem os óleos de Bette Davis.

 

(mas desconfio que seu nome verdadeiro seja Norman Bates).

Escrito por Ronaldo Rony/Ronaldo Rodrigues às 11h47
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09/10/2009


A onda de greves

se alastra pelo país.

Agora, são as operadoras

de telemarketing

a deflagrar sua greve.

A seguir, a mensagem

do comando de greve:

 

COMPANHEIROS!

VAMOS ESTAR ENTRANDO

EM GREVE PARA QUE

POSSAMOS ESTAR

REIVINDICANDO

MELHORES CONDIÇÕES

DE TRABALHO E PARA QUE

POSSAMOS ESTAR ATENDENDO

MELHOR AS LIGAÇÕES

QUE OS NOSSOS CLIENTES

POSSAM ESTAR FAZENDO.

PEDIMOS QUE VOCÊ POSSA ESTAR

COMPREENDENDO A NOSSA LUTA

E QUEREMOS ESTAR PEDINDO

A SUA ADESÃO AO MOVIMENTO.

 

COMPANHEIROS, A LUTA

VAI ESTAR CONTINUANDO!

 

Escrito por Ronaldo Rony/Ronaldo Rodrigues às 11h20
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07/10/2009


PARTICIPANTES

DAS OLIMPÍADAS

DO RIO DARÃO

UMA ESTICADINHA

ATÉ A FLORESTA

AMAZÔNICA.

SE A FLORESTA

RESISTIR ATÉ

2016, É CLARO.

Escrito por Ronaldo Rony/Ronaldo Rodrigues às 16h01
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AQUECIMENTO

GLOBAL

DERRETE

GELEIRAS

POLARES

E PROVOCA

VAZAMENTO

DA PROVA

DO ENEM

Escrito por Ronaldo Rony/Ronaldo Rodrigues às 15h41
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06/10/2009


 

Olim-piadas no Rio

• Equipe de tiro ao alvo vai tentar bater recorde de balas perdidas.

• Mosquito da dengue cotado para ser o mascote das Olimpíadas.

• As prostitutas do calçadão de Copacabana receberão atletas sexuais de todas as partes do mundo.

• Chefões do tráfico já contabilizam os lucros com o aquecimento das vendas no período olímpico.

• O governador do Rio de Janeiro, Fernandinho Beira-Mar, já reservou seu camarote de segurança máxima.

• Piscinão de Ramos entra em reforma para ser a sede da natação.

 

Escrito por Ronaldo Rony/Ronaldo Rodrigues às 15h47
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O fim está próximo

 

• Místicos de quinta categoria quebram a mandala e enchem o saco.

• Magos de livros de auto-ajuda ajudam donas-de-casa a combinar a cor do avental com a geladeira.

• Gurus incompreendidos metidos a escritores batem recordes de venda.

• Bruxos de boutique lêem a mão de neo-ripongas enquanto manicures exotéricas fazem as unhas de dondocas emergentes.

• Milagres que escaparam às explicações de Mister M ainda fazem sucesso na TV.

• Alquimistas fajutos reviram as pirâmides em busca da falsa pedra filosofal.

• Mestres do charlatanismo ocupam horários vespertinos de televisão com as grandes novidades do submundo dos encantadores de serpente.

• Falsos profetas divulgam suas mensagens de final dos tempos pela internet.

• Rasputim e Ravengar disputam com Harry Potter pelos restos mortais de Nostradamus.

Escrito por Ronaldo Rony/Ronaldo Rodrigues às 12h14
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