a coisa pública


29/07/2009


 

 

Avenilda e Rualdo se cruzavam bem no centro da cidade. O bairro todo comentava o romance. Avenilda não se importava muito, mas Rualdo não se sentia à vontade. Propôs que se mudassem para o subúrbio. Avenilda argumentava:

- Rualdo, no subúrbio estaremos mais expostos aos comentários. Quanto menor o lugar, maior a fofoca. E, cá pra nós, estou me lixando pro disse-me-disse desta cidade!

Rualdo propôs que só se encontrassem na madrugada, quando a cidade estivesse deserta.

- Você está é com vergonha de mim, Rualdo!

- Nem pense nisso, Avenilda! Eu amo você! Por mim, namoraríamos o dia todo. Acontece que aqui no centro é esse corre-corre. É muita gente passando o tempo todo.

- O que faremos, então? Pro subúrbio eu não vou. A cidade cresceu em torno de mim!

- Eu lembro bem. Você demorou a notar minha existência! Pudera! Você é a avenida principal, cheia de importância!

- Ah, Rualdo! Acho que você tá é com dor de cotovelo, complexo de inferioridade. Você é uma rua legal, larga, arborizada.

- Tudo bem, Avenilda! Vamos ficar aqui mesmo.

- Isso, querido. E vamos nos encontrar sempre que quisermos.

- É mesmo! Dane-se quem quiser falar. Afinal, estamos numa metrópole, é hora dessa gente crescer também.

Avenilda e Rualdo consolidaram sua relação, que acabou anos mais tarde quando um viaduto os separou.

 

Escrito por Ronaldo Rony/Ronaldo Rodrigues às 16h15
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A MOÇA DO TEMPO

 

Aos 19 anos, Mariana completou 30. Sempre à frente de seu tempo, Mariana menstruou aos 70 e perdeu a virgindade aos 3. O tempo era seu passatempo. Seus banhos demoravam duas semanas, mas para comer cinco pizzas e três refrigerantes, dois segundos e meio bastavam. Mariana se casou com seu avô, este com sete anos. Seu filho mais velho nasceu depois dos trigêmeos, que vieram ao mundo separadamente, em Estocolmo, Kingston e Bruxelas. Seus netos a conheceram na festa de seu 15º aniversário, quando ela, já completamente senil, ainda não havia nascido. Sempre que perguntada pelas horas, Mariana respondia que faltavam quinze dias para dois minutos, tempo em que viriam o calor infernal do inverno, as flores no outono, a primavera hostil e o verão glacial. Mariana começou a escrever suas memórias antes dos 150 anos e as concluiu com apenas dois dias de nascida. Seus pais começaram a namorar 20 anos antes de se conhecerem. Depois do mestrado e doutorado, Mariana ingressou na alfabetização, onde aprendeu a ler todos os livros que ainda não haviam sido escritos. Foi quando Mariana pediu um tempo ao tempo.....................................................................

Então, todos os relógios do mundo marcaram a mesma hora. Quando seu primeiro ancestral iniciou sua proliferação, bem no começo de toda a existência, o tempo fechou para Mariana. As ampulhetas explodiram e os relógios, com seus ponteiros apontados para ela, gritaram numa só voz:

- Seu tempo acabou! Seu tempo acabou! Seu tempo acabou! Seu tempo acabou! Seu tempo acabou! Seu tempo acabou! Seu tempo acabou! Seu tempo acabou!

 

Ao que o corvo de Poe respondeu:

Nunca mais! Nunca mais! Nunca mais! Nunca mais! Nunca mais! Nunca mais! Nunca mais!

 

Escrito por Ronaldo Rony/Ronaldo Rodrigues às 16h12
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28/07/2009


 

DOCTOR LECTER

 

     - Minhas unhas não estão mais me agradando. Após tantos anos de degustação, elas começam a ficar insossas. Agora, o que atrai meu paladar são meus dedos. Sinto vontade de comê-los, mastigando pequeníssimos pedaços. Será que sou canibal, doutor?

     - Calma! Se você for canibal está com pouco uso. Não fez nenhuma vítima até agora, além dos dedos de sua mão direita. Os da mão esquerda ainda estão pela metade.

     - É que como eles só como tira-gosto.

     - Você ainda não devorou ninguém.

     - Mas a vontade é muita!

     - Essa vontade pode ser controlada. E pare de olhar para os meus dedos com esses olhos gulosos. Pegue um guardanapo e enxugue a água que está escorrendo da sua boca.

     - É mais forte que eu, doutor! Acho que o senhor vai ser minha primeira vítima!

     - Nem pense nisso. Pegue! Vá mastigando estas cutículas que minha manicure deixou aqui em cima da mesa depois de fazer minhas unhas. Como eu ia dizendo, essa impressão que você tem de que é um canibal pode ser curada de uma forma bem simples. Pare de colocar ketchup nos meus dedos! Você não vai me comer. Nem vai comer ninguém. Você não é, nunca foi e nunca será um caniba... ai!

     - Calma, doutor! Vou comer só o seu braço. O senhor é bem gostoso, hein, doutor? Mnham!

 

Escrito por Ronaldo Rony/Ronaldo Rodrigues às 11h28
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