a coisa pública


16/07/2009


 

Pensando bem...

 

Paro pra pensar e penso que na minha aldeia há um dito: não se deve parar pra pensar, mas continuar andando enquanto se pensa, porque isso é pensar, colocar o lado de dentro da cabeça em movimento. Então, sigo pensando e passo a pensar que passei muito tempo da vida só pensando. Todas as pessoas da cidade trabalhavam ou saíam pras danceterias ou praticavam algum esporte ou simplesmente jogavam conversa fora. Enquanto isso, eu só pensava. Pensava nessas pessoas todas se movimentando pelos lugares que citei acima ou pensava nesses lugares sem as pessoas ou as pessoas fazendo coisas em outros lugares. Poderia até pensar que perdi tempo pensando e que poderia juntar ações aos pensamentos e fazer como maioria dos mortais: viver. Mas posso também pensar que tempo nada significa pra quem pensa, já que quem pensa pode muito bem pensar que o tempo está abolido. Pode pensar em parar o tempo. E, como se trata de pensamento, tudo é possível. Tipo assim:

O pensamento me assalta Estou dormindo tranquilamente. Eis que chegam as idéias com arma na mão e dizem: isto é um assalto! E entram por meus olhos, nariz e boca, aproveitam os poros da cabeça, os condutos dos cabelos e chegam até os neurônios. Esses pensamentos, embaralhados dessa forma, já passam a ser outra coisa: sonho, que é o pensamento de quem dorme. É a forma que o pensamento achou para continuar existindo quando, supostamente, a cabeça está descansando, em stand by. Ah, sim! E por falar em stand by, é hora de dizer bye-bye. Dá licença que eu vou pensar.

 

Escrito por Ronaldo Rony/Ronaldo Rodrigues às 10h22
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13/07/2009


 

 

Bateu vontade de experimentar este tipo de texto, pra ser falado por ator, de cara limpa, no palco, ele e o microfone (ou sem microfone). É o tal do stand-up, em voga ultimamente. Lá vai!

(Ronaldo Rony)

Sabe quando foi que descobri que estava ficando velho? Foi... foi... deixa ver se me lembro! Ah, Sim!  Foi quando comecei a ter problema de... de... de quê mesmo? Eu comecei a ter uns lapsos, dava uns brancos... de ... memória! É isso! Comecei a esquecer as coisas, esquecer nomes de pessoas, datas... E comecei a perder as coisas. Já perdi óculos, isqueiro, celular. Só não perdi o piano lá de casa por dois motivos: eu nunca tive piano nem casa.

Quando se está ficando velho é um terror. Dói aqui, dói acolá. Um dia o reumatismo bateu tão forte que quase não consegui me levantar da cama pra pegar minha dentadura dentro do copo d’água.

Mas eu não me acho tão velho assim. As pessoas em volta é que acham. Outro dia tive que entrar no ônibus pela porta da frente. O motorista e alguns passageiros não permitiram que eu entrasse pela por de trás. E me fizeram sentar numa cadeira especial para pessoas da terceira idade. O motorista ainda falou: no meu ônibus, vocês têm prioridade!

Encontrei com um amigo e falei pra ele dessa minha paranóia com a idade. Ele disse pra eu não me preocupar que eu estava igualzinho à primeira vez que ele me viu, quando a gente se conheceu, vinte anos atrás. A mesma cara, o mesmo corpo. Achei legal. Fiquei animado com aquilo. Alguém finalmente percebeu que eu não estou tão velho assim. Aí ele me esclareceu. É que eu, desde aquela época, vinte anos atrás, já tinha cara de velho, corpo de velho, roupa de velho...

Mas a paranóia da idade bateu forte mesmo quando revi minha primeira namorada. Tava do mesmo jeito. Lindona. Uma gata. Quando a vi chegando fiquei tonto, minha respiração falhou, as mãos começaram a tremer, meu coração disparou. Desmaiei na hora. Alguns segundos antes de desmaiar, ouvi alguém gritando: mataram o velho! Ainda pensei em protestar, mas a minha cara já tinha aterrissado na calçada, o sangue jorrando do nariz, as pernas trançadas.

Acordei no hospital. Na ala de geriatria. Por que me trouxeram pra ala de geriatria? Eu só tenho 43 anos, nem careca eu sou. O cabelo tá branco, tudo bem, mas é uma tintura que eu passo. Pra dar charme, sei lá...

O médico me encheu de remédio, tudo pra idoso. Ainda falou que eu tinha que me cuidar, já não era um garoto. Fiquei meio puto com aquele médico e falei que nunca mais queria vê-lo de novo. Ele falou que em muito breve eu não o veria mesmo. Minha visão estava com os dias contados. Coisas da idade... Aí eu perdi a calma! Só não o agredi porque não consegui encontrar a minha bengala.

 

e por aí vai...

Escrito por Ronaldo Rony/Ronaldo Rodrigues às 11h20
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