a coisa pública


15/04/2009


 

Siga aquela vida

Minha vida passou. Eu estava bebendo no balcão do bar e vi minha vida dobrar a esquina. Corri atrás. Minha vida entrou num táxi e mandou o motorista pisar fundo. Peguei o táxi que vinha em seguida e falei a clássica frase de filmes:

- Siga aquele carro!

- Por que você está seguindo esse táxi?

- É que minha vida está indo nele!

- Sua vida? Como assim?

- É! Eu sei que é estranho. Se é estranho pro senhor, imagine pra mim!

- Você não deve dar importância pra isso.

- Mas o que é que eu vou fazer sem a minha vida? Eu não posso viver sem ela! Se ainda tivesse avisado, mas não! Vai embora assim, de supetão!

- A vida costuma ir embora assim mesmo. Ela não manda bilhete dizendo: Aí, meu! Tô indo nessa! Ela vai embora e pronto.

- E como é que eu estou aqui e minha vida está lá?

- É que você não existe mais. A sua vida se foi. Você embarcou em outra viagem. Você e sua vida pegaram rumos diferentes.

- Não estou entendendo...

- Vai entender quando eu me apresentar.

- Ei! O senhor está saindo da estrada! Vai bater no muro! Pare agora mesmo!

- Impossível. Não há mais volta, meu amigo. Permita que eu me apresente: eu sou a morte. Ou melhor, sou a sua morte. Desfaça essa cara de medo! Você vai ver que nem dói. Dá um tchauzinho aí, vai.

-Nããããããããããããããããããããããããoooo!!!

(Estrondo de carro colidindo com um muro).

Ronaldo Rodrigues

 

Escrito por Ronaldo Rony/Ronaldo Rodrigues às 15h01
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13/04/2009


Não Joga pedra na Geni

“De tudo que é nego torto / do mangue e do cais do porto / ela já foi namorada”. Eu era um perdido no caos do porto da vida e ela me amava assim mesmo. Desconsiderava minhas feridas e lambia meu corpo inteiro. Me colocava pra dormir em sua cama de papelão, sob a marquise de alguma loja. Ou no chão de um banheiro imundo. Ela acolhia a todos os famintos e dava de comer. Os que tinham frio ela aquecia entre seus seios. Eu era mais um em sua teia, mas cada um sabia que era único. Ela nos fazia amados e preparados pra amar. Nos fazia crer que era possível continuar e sugar da vida tudo o que ela trazia de bom. O que era ruim já se conhecia tanto. Não devíamos desperdiçar energia em ofícios vãos, preocupações metafísicas, o segredo dos astros, a fofoca da esquina. Que vivêssemos! Vivêssemos! Vivêssemos! Só isso!

Ela não fraquejou nem quando a carruagem parou na entrada do beco. O dono do mundo desceu reclamando suas carícias. Ele desejava ter aquela mulher que tantos tinham. Ele começou oferecendo dinheiro, jóias, roupas, viagens ao exterior. Ela disse não a um homem que não estava acostumado a ouvir essa palavra tão pequena na forma e tão grande em sua significação. Ele ofereceu toda a sua fortuna e ouviu outro não. Por fim, ofereceu apenas o seu amor. Quando ela duvidou disso, ele passou à chantagem. Colocou todos nós, os mendigos, como reféns. Ele só queria uma noite de amor, se não mandaria nos matar. Ela olhou o dono do mundo por longo tempo. A limpeza de suas ricas roupas a enojava. Seu perfume caro causava náuseas. Seu sorriso com todos os dentes lhe dava repugnância. Ela nos olhou e sorriu. Aceitaria aquela tortura por nós. E nós, covardes, não fizemos um gesto de impedimento. Também podíamos tão pouco. Ele apenas anteciparia a matança.

“Ele fez tanta sujeira / lambuzou-se a noite inteira” e foi embora, nos deixando vivos. Ela nos abraçou e abençoou nosso cheiro azedo, nosso hálito de cachaça, tabaco e fome. Aquele homem que era dono de tudo não era nada perto de nós. E se a cidade toda quiser, um dia, apedrejá-la vai encontrá-la subindo aos seus céus, como uma santa, levando pelas mãos todos os perdidos.

Ronaldo Rodrigues

 

 

 

Escrito por Ronaldo Rony/Ronaldo Rodrigues às 17h48
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