Algo ou alguém aí está a fim de trocar de personalidade?
(Ronaldo Rodrigues)
Disposto a encontrar uma utilidade para minha existência resolvi trocar de personalidade com alguém. Como não conhecesse ninguém que me despertasse admiração ou curiosidade, só me restou trocar de papel com alguma coisa. O único objeto que topou a experiência foi a velha cadeira de balanço. Tomei seu lugar na varanda e esperei o primeiro ser disposto a sentar em mim. A cadeira foi trabalhar em meu lugar e no escritório ninguém notou a mudança. Os coleguinhas reservaram a ela o mesmo desprezo com que me tratavam. Eu fiquei na varanda a tarde inteira e não apareceu um mendigo sequer para balançar seu corpo débil. Visita só quem recebia era minha irmã e nesse dia nenhum namorado apareceu com aquele ar de dono da casa. Eles chegavam e se jogavam na primeira coisa que pudesse acomodar seus corpos musculosos e suas cabeças desprovidas de miolo. Foi então que minha irmã apareceu. Senti que minha primeira experiência como cadeira iria se realizar. Ela me carregou pra dentro e me colocou em frente à TV. Era a velha mania de assistir a programas sem conteúdo sentada na cadeira de balanço. Sentou em mim como se eu fosse fabricado de material indestrutível desenvolvido pela Nasa. Ligou a TV e dividiu a novela insossa com o celular, em longas conversas com suas trezentas amigas íntimas. Como estaria se saindo a cadeira?
Ela voltou no final do dia, no momento em que minha irmã desligava o celular e a TV. Foi recebê-la na porta e disparar as reclamações reservadas pra mim. Era o que acontecia todos os dias na volta do trabalho. A cadeira deixou os papéis do escritório na mesa e jogou todo o seu peso em cima de mim. Achei que era o momento de desfazer o negócio e voltar a ser eu mesmo. Propus à cadeira devolver sua personalidade e retomar a posse da minha. Ela não aceitou. Disse que tinha gostado muito da experiência de sair, ver pessoas e trabalhar. Falou que, no decorrer do expediente, foi ganhando a simpatia dos coleguinhas, que finalmente notaram a minha (quer dizer, a dela) presença. O gerente da seção a promoveu. O próximo pagamento já viria devidamente reajustado com um aumento que eu (eu mesmo) jamais sonhei. E disse mais: no final do ano, faria uma viagem ao exterior para desenvolver seus dotes empresariais. Eu (a cadeira) tinha sido elogiado pelo big boss da empresa, que deu um esporro no gerente por este não ter reconhecido minha (dela) competência nesses cinco anos de trabalho. O gerente se desculpou alegando que somente naquele dia eu tinha mostrado serviço. Tinha conseguido resolver todos os problemas que vinha acumulando nesses anos todos. E ainda apontei soluções para outras seções. Os coleguinhas passaram a me tratar com respeito, se perguntando como pôde passar despercebido todo aquele talento. Conclusão da história: minha cadeira (eu) sempre liga da matriz da empresa, em Nova Iorque, pra saber como eu (ela) estou. E minha irmã responde que ainda vou aguentar suas bruscas sentadas por muito tempo.