a coisa pública


08/04/2009


 

Marieta subiu na carreta nem se importando com as caretas das ninfetas que ficavam à tarde no maior alarde com suas lambretas pretas estacionadas na sarjeta. Avistou o monge lá longe, sozinho no caminho de espinhos. Notou seu cansaço e seu passo lasso em descompasso. Ele atravessava o deserto com seu andar incerto, espantando os insetos. Marieta ofereceu uma carona e o monge aceitou na hora sem demora. Ele que não era ingrato, de bom grado, dizendo obrigado, embarcou naquele caminhão grandão que transportava gente carente pelo sertão. Marieta seguiu então em direção ao rio, cruzou a ponte, descortinando um novo horizonte e embarcou mais três pessoas que andavam à toa, ao léu, tendo por testemunha só chão e céu. Marieta desde menina franzina cumpria aquela sina de peregrina transportando gente de todo lugar sem nunca cansar nem pensar em parar. Um dia haveria de parar e como seria que o povo iria se virar? O caminhão percorria o chão do sertão e estava quase pra deixá-la na mão. Quando o caminhão então de supetão parasse de vez Marieta continuaria a pé, ela e sua fé, que nunca deu marcha ré, carregando gente pela mão. E se seu corpo cansasse e cessasse sua respiração não faltaria inspiração. Continuaria na outra vida ajudando a multidão a encontrar a direção. Seria uma santa dirigindo uma jamanta carregada de boa intenção.

Escrito por Ronaldo Rony/Ronaldo Rodrigues às 10h29
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07/04/2009


Algo ou alguém aí está a fim de trocar de personalidade?

(Ronaldo Rodrigues)

 

Disposto a encontrar uma utilidade para minha existência resolvi trocar de personalidade com alguém. Como não conhecesse ninguém que me despertasse admiração ou curiosidade, só me restou trocar de papel com alguma coisa. O único objeto que topou a experiência foi a velha cadeira de balanço. Tomei seu lugar na varanda e esperei o primeiro ser disposto a sentar em mim. A cadeira foi trabalhar em meu lugar e no escritório ninguém notou a mudança. Os coleguinhas reservaram a ela o mesmo desprezo com que me tratavam. Eu fiquei na varanda a tarde inteira e não apareceu um mendigo sequer para balançar seu corpo débil. Visita só quem recebia era minha irmã e nesse dia nenhum namorado apareceu com aquele ar de dono da casa. Eles chegavam e se jogavam na primeira coisa que pudesse acomodar seus corpos musculosos e suas cabeças desprovidas de miolo. Foi então que minha irmã apareceu. Senti que minha primeira experiência como cadeira iria se realizar. Ela me carregou pra dentro e me colocou em frente à TV. Era a velha mania de assistir a programas sem conteúdo sentada na cadeira de balanço. Sentou em mim como se eu fosse fabricado de material indestrutível desenvolvido pela Nasa. Ligou a TV e dividiu a novela insossa com o celular, em longas conversas com suas trezentas amigas íntimas. Como estaria se saindo a cadeira?

Ela voltou no final do dia, no momento em que minha irmã desligava o celular e a TV. Foi recebê-la na porta e disparar as reclamações reservadas pra mim. Era o que acontecia todos os dias na volta do trabalho. A cadeira deixou os papéis do escritório na mesa e jogou todo o seu peso em cima de mim. Achei que era o momento de desfazer o negócio e voltar a ser eu mesmo. Propus à cadeira devolver sua personalidade e retomar a posse da minha. Ela não aceitou. Disse que tinha gostado muito da experiência de sair, ver pessoas e trabalhar. Falou que, no decorrer do expediente, foi ganhando a simpatia dos coleguinhas, que finalmente notaram a minha (quer dizer, a dela) presença. O gerente da seção a promoveu. O próximo pagamento já viria devidamente reajustado com um aumento que eu (eu mesmo) jamais sonhei. E disse mais: no final do ano, faria uma viagem ao exterior para desenvolver seus dotes empresariais. Eu (a cadeira) tinha sido elogiado pelo big boss da empresa, que deu um esporro no gerente por este não ter reconhecido minha (dela) competência nesses cinco anos de trabalho. O gerente se desculpou alegando que somente naquele dia eu tinha mostrado serviço. Tinha conseguido resolver todos os problemas que vinha acumulando nesses anos todos. E ainda apontei soluções para outras seções. Os coleguinhas passaram a me tratar com respeito, se perguntando como pôde passar despercebido todo aquele talento. Conclusão da história: minha cadeira (eu) sempre liga da matriz da empresa, em Nova Iorque, pra saber como eu (ela) estou. E minha irmã responde que ainda vou aguentar suas bruscas sentadas por muito tempo.

 

Escrito por Ronaldo Rony/Ronaldo Rodrigues às 12h23
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06/04/2009


 

SUPER-HERÓIS IMPROVÁVEIS

 

No dia-a-dia ele é apenas um cílio, um simples cílio. Mas quando se faz necessária a atuação de um super-herói, ele se transforma no...

SUPERCÍLIO!

Em sua identidade oficial ele é um visor, um mísero visor. Mas quando a sociedade precisa de proteção, ele se transforma no...

SUPERVISOR!

Ele é um mercado, um humilde mercadinho. Mas quando as coisas não estão indo muito bem, ele se transforma no...

SUPERMERCADO!

Santa bobagem, Batman! Super-Tchau!

 

 

Escrito por Ronaldo Rony/Ronaldo Rodrigues às 11h35
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CUIDADO!

 

Mouse

de computador

pode causar

laptopspirose.

 

Escrito por Ronaldo Rony/Ronaldo Rodrigues às 09h13
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SÓ DESABAFO!

Sempre duvidei de verdades absolutas. Tudo o que pode ser comprovado me desinteressa. Afirmações radicais me entediam. Certificados me tiram a paciência. Idéias inabaláveis me enchem o saco. Comprovações científicas me irritam. Frases feitas decoradas de almanaques me aborrecem. Dogmas e cânones me dão sono. Velhas novidades me dão nos nervos. Ídolos e ícones me exasperam. Inteligências desprovidas de sabedoria me enlouquecem. Deixem-me pensar, como Heráclito, que a única coisa permanente é a mudança. A dúvida, sim, é absoluta.

Escrito por Ronaldo Rony/Ronaldo Rodrigues às 09h12
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