a coisa pública


09/07/2008


Outro conto de Ronaldo Rodrigues

 

NA BALEIA

 

Acordei naquele dia ainda bêbado. Demorei a perceber que estava dentro da baleia. Estômago de baleia, vocês sabem, é muito pequeno, parece um apartamento japonês. Então eu estava meio esprimido no meio do monte de plâncton que tinha sido a última refeição da baleia. Pensei por alguns momentos sobre como sair dali. Mas depois, como a preguiça pós-bebedeira era quase maior que a baleia, me deixei ficar naquele remanso. Aí pensei nas figuras que já estiveram dentro de uma baleia. Pinóquio e Gepetto estiveram dentro da baleia Monstro. Jonas esteve por três dias dentro de um peixe imenso que a Bíblia não diz que é baleia, mas eu digo. Se bem que baleia não é peixe, é mamífero. Sou teimoso nessas coisas: se baleia vive no mar então é peixe. Aí vocês podem dizer: esponja vive no mar e não é peixe. Eu respondo que esponja vive é no supermercado antes de parar na pia de alguma dona-de-casa. Mas isso é bobagem de minha parte. Devo estar perturbado pelo fato de me encontrar dentro de uma baleia. Tento lembrar como vim parar aqui, bêbado. Aos poucos vou montando o cenário. Agora já consigo colocar alguns personagens nesse cenário. São meus amigos, que bebiam comigo na noite anterior. Onde será que eles estão agora? No estômago de outra baleia? Devem estar se divertindo, os safados! Agora me lembro. Estávamos num navio celebrando a primeira viagem desse navio. Lembro perfeitamente agora de alguém discursando sobre a impossibilidade daquele navio naufragar. O que acabou de entrar pela boca da baleia? Uma folha de jornal. Vejamos o que diz esse jornal. Ah! Agora tudo faz sentido. É isso mesmo! Vejam, senhores, a manchete do jornal: “Hic! Hic! Hic! Titanic vai a pique”. Bingo! Lembrei de tudo. Estávamos na viagem inaugural do Titanic. Sentimos o impacto de uma colisão, pessoas correndo deseperadas e nós só bebendo. Vejo que sobrevivi, talvez graças ao meu estado de embriaguez, que atraiu esta baleia alcoólatra, que me engoliu como uma dose de uísque e me livrou de morrer afogado. Dos males o melhor. Vou ficar por aqui mesmo dentro desta baleia. Quem sabe daqui a pouco ela engole a Kate Winslet. Saúde!  Ui minha cabeça!!

 

Escrito por Ronaldo Rony/Ronaldo Rodrigues às 11h36
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07/07/2008


Conto de Ronaldo Rodrigues

 

QUE COISA!

 

Eu tinha acabado de pedir meu café com leite (sem leite) e pão com manteiga (sem manteiga) quando chegou A Coisa. Trazia um poodle no colo. E foi o poodle que falou:

– Olá, Coisa Nenhuma. Eu sou A Coisa. Quer dizer, ele é A Coisa.

– Eu sei.

Eu sempre tinha esses encontros insólitos. Como aquela vez em que me deparei com um policial de minissaia correndo pela avenida na hora do rush, em profunda frustração por não ter evitado o assassinato de John, não o Lennon, mas o Kennedy. Ele me disse que ainda tinha a última frase de Kennedy martelando em sua cabeça: “Pra mim, ovos mexidos com bacon!”.

Mas voltando ao poodle que falava comigo me explicando que só fazia isso porque seu dono, A Coisa, não poderia se rebaixar a tonto. Então ele mesmo tinha que fazer esse trabalho sujo.

– Muito bem! Meu amo lhe detesta. Coisa Nenhuma pra ele é nenhuma coisa. E assim ele o trata. Ele lhe procurou pra saber de Grande Coisa, seu irmão-quase-gêmeo que você odeia. Diga, Coisa Nenhuma! Onde está Grande Coisa?

Fiquei atônito, como sempre ocorre quando sou destratado por um poodle. Aquele filho de uma poodle estava me provocando.

– Sei o que está pensando! – Falou o poodle despudorado – Mas estou apenas transmitindo o que meu amo pensa de você. Se bem que não deixo de concordar com ele sobre o ser desprezível que você é, Coisa Nenhuma. Só seu irmão-quase-gêmeo, Grande Coisa, vale o sacrifício que estou fazendo. Esta última frase é minha.

– O que vocês querem com Grande Coisa?

– Meu amo acha que você maltrata Grande Coisa deixando-o trancado naquela gaveta de meias fedorentas naquele porão imundo.

Aquela era uma acusação absurda! Há muito que deixei de trancar Grande Coisa na gaveta das meias pelo simples motivo de não usar mais meias.

– Você está enganado! Veja! – Mostrei meus cotos – Não uso mais meias porque não tenho mais pés, desde a última vez que encontrei com você, A Coisa! Me desfiz da gaveta junto com as meias. Naquele momento eu tinha que tomar uma atitude drástica, sem meias fedidas, digo: sem meias medidas.

O poodle virou bulldog:

– Eu odeio esses seus trocadilhos fora de hora! Diga de uma vez, Coisa Nenhuma! Onde está Grande Coisa?

Notei que A Coisa abria sua jaqueta e tirava uma arma. Foi quando Coisinha do Pai entrou na padaria e desferiu tiros a esmo. Me abaixei a tempo de evitar que o sangue do poodle, o único a ser atingido, sujasse minha camisa. A Coisa fugiu, como sempre acontecia quando estava perdendo. Coisinha do Pai me cumprimentou e foi embora. Na certa ia preparar com A Coisa e Grande Coisa uma nova brincadeira. Só tinham que encontrar outro poodle falante.

 

Escrito por Ronaldo Rony/Ronaldo Rodrigues às 09h24
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OUTROS CONTOS DE RONALDO RODRIGUES

Me danei a escrever contos (ou coisa parecida). Vou colocar alguns aqui. A começar por este:

O DIA DA TRAVESSIA

 

O canal se estendia à minha frente. Toda manhã, ao abrir a janela, lá estava ele, num permanente desafio.

Do outro lado do canal ficava a fonte da juventude, bem ao lado do castelo da mulher com mais de 300 anos que, segundo diziam, todo dia bebia da fonte e assim mantinha seus traços de 16 anos. Muitos homens tentavam atravessar o canal para vê-la. A maioria retornava depois de poucas braçadas. A correnteza era muito violenta. Muitos morreram na travessia. Todos os homens da cidade tentavam. Estava chegando a minha vez.

Sempre que se entrava na adolescência era o momento de se tentar a travessia. Antes disso a vida se resumia em treinar. Meu cachorro Madrugada me acompanhava nos treinamentos e quando me senti preparado para realizar o feito, Madrugada se mostrou muito interessado em ir comigo:

- Você não precisa ir. Deixe que eu trago um pouco da água da fonte da juventude pra você. E à mulher do castelo eu digo que você mandou saudações.

Madrugada não entrou em acordo e no dia da travessia lá estava ele ao meu lado, recebendo os cumprimentos e as recomendações de toda a população.

Mergulhamos no canal e percorremos uma grande distância até Madrugada se afastar. Ele tomou a dianteira e o perdi de vista. Eu já estava exausto quando cheguei ao outro lado. Andei pela praia, em direção à fonte da juventude e a encontrei seca. Fui ao castelo e percebi que ele era de areia e se desmanchava com o sopro da minha respiração.

Saí procurando Madrugada e a menina de 300 anos. Só os vi quando olhei para o outro lado do canal, de onde eu havia saído. Lá estavam os dois passeando pela tarde, acenando para mim. Ao retribuir o aceno foi que reparei em minhas mãos se tornando flácidas, a pele e a carne se desmanchando igual ao castelo de areia, igual ao sonho de encontrar a juventude, igual a este conto e a tantas coisas que chegam ao fim.

Escrito por Ronaldo Rony/Ronaldo Rodrigues às 09h17
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