a coisa pública


21/02/2008


UM CONTO DE RONALDO RODRIGUES

 

KANAÚ

 

O nome Kanaú foi emprestado de um personagem

de Arara Vermelha, romance de José Mauro de Vasconcelos

 

Sei que se movia numa região pantanosa. Entre a muralha do castelo da realidade e seu coração, havia uma ponte elevadiça há séculos emperrada.

       Setenta anos se passaram sem notícias dele. A cidade não dormia. Ele tinha levado não só o sonho, mas o sono de toda a gente. E somente aos domingos, embaixo da árvore da dúvida, era permitido falar nisso.

       Sua família amealhou posses. Seus irmãos enriquecidos ostentavam poses. E sua amada chorava entre a espada cega da verdade e a colcha de retalhos de tristeza que tecia na beira do cais desde que ele sumiu no mundo, submundo, imundo, mundano. Sua casa foi comida pela hera. Era após era. Após hora.

Quando ele retornou numa quarta-feira de cinzas, na nau do esquecimento, sua barba o escondeu tão bem que nem seu cachorro Madrugada, grande devorador de sábados, o reconheceu. E seu irmão gêmeo jurou nunca ter visto aquele rosto.

Quando ele pousou o pé descalço sangrando gotas de azul e pisou o território selvagem de sua infância a sombra da torre da igreja, muito antiga e já desprovida de sinos, soou do meio-dia às seis da tarde. O pássaro do dia, que há muito não voava pelo firmamento da imaginação, abriu suas asas e fez o silêncio despertar as nuvens, que partiram céleres levando uma notícia muito boa para um país muito longe.

No outono, veio a revelação. Quando sua barba caiu por completo, seu melhor amigo de infância, que se tornara próspero comerciante, lhe cobrou aquela dívida de jogo, motivo de sua fuga.

Então, a cidade inteira o reconheceu, o cercou junto ao poço da solidão, e passou a devorá-lo como antigamente. Só as árvores o reverenciaram, tangendo no deserto da noite um rebanho de estrelas cadentes.

Escrito por Ronaldo Rony/Ronaldo Rodrigues às 16h16
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19/02/2008


UM CONTO DE RONALDO RODRIGUES

 

DE NAZARÉ

 

         De Nazaré estava passando em frente ao bar e os outros estivadores assoviaram alegremente chamando-o para um trago. Bom de copo como de serviço, De Nazaré pensou um pouco e concluiu que um convite feito com tanta sinceridade e alegria não poderia ser recusado. Deixou a pesada cruz encostada ao lado do bar e abriu os braços pra os amigos.

         Todos gostavam de ouvir De Nazaré cantar, mas ele só fazia isso quando estava bastante embriagado. Então bebeu, de uma só vez, meia garrafa de pinga. A bebida explodiu quente nas engrenagens cerebrais e despertou o cantor apaixonado que De Nazaré sonhou ser em sua juventude. Abriu a garganta, libertando o pássaro da voz, e fez com que todos ali esquecessem, por alguns instantes, a miséria quotidiana e a coroa de espinhos que eram obrigados a suportar.

         Mais do que uma simples distração, as músicas eram um alívio, acentuado pelo entorpecimento da cachaça. Uma trégua para quem tem que colocar a carga do mundo nas costas e encher os porões dos navios.

         Depois de algum tempo de cantoria, De Nazaré resolveu ir embora, continuar seu amargo ofício. Era quatro horas da madrugada e ele tinha que carregar mais algumas dezenas de cruzes antes do amanhecer. Homem de palavra, De Nazaré honrava os compromissos e nunca deixou uma entrega por fazer.

         Os outros estivadores bem que queriam que De Nazaré continuasse a cantoria, mas sabiam que eles mesmos teriam que se retirar para enfrentar o batente. Voltaram à realidade e se foram, deixando os restos de peixe frito para os cachorros do cais.

         Sozinho novamente, De Nazaré sentiu os pingos da chuva que começava a cair. Tomou o último gole e, sob a precária iluminação do poste, recolocou a cruz no ombro e caminhou em direção à ponte de tabuinhas irregulares que levava aos navios ancorados na escuridão.

Escrito por Ronaldo Rony/Ronaldo Rodrigues às 15h42
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18/02/2008


ACHO QUE É UMA LETRA DE RAP

 

 

pelas alamedas do calvário

 

o tempo todo assim

provando a vida pelo lado ruim

 

tudo começou lá no berçário

já me botaram este crachá

que diz assim

mais um otário

mais um escravo

pra cumprir horário

pela miséria do salário

 

foi no batismo

que se abriu o abismo

eu logo vi

vi que o catolicismo

era um conto do vigário

o catecismo era uma das caras

descaradas do cinismo

o padre instrutor da doutrina

não perdoava as meninas

os meninos eram ovelhas

na mão do lobo

o padre que não era

nada bobo

abatia todo o rebanho

por debaixo da batina

 

o tempo todo assim

provando a vida pelo lado ruim

 

na escola desaprendi a lição

e tive que inverter a educação

tive que inventar outro abecedário

pra fugir da marcação

outra matemática

que aquela era estática

outra gramática

que aquela era reumática

outra história

que aquela era só enganação

tudo isso pra chegar

à seguinte conclusão

o diploma que eu ganhei é falso

que tudo o que aprendi é ilusão

 

o tempo todo assim

provando a vida pelo lado ruim

 

no escritório-purgatório

era só desconto

no relógio de ponto

senti na pele

o poder do proprietário

é a lei do cão

a lei do patrão

ladrão que rouba o teu pão

tem cem mil anos de perdão

é ele que ri de mim

é ele que decreta o fim

é ele que tranca o portão

 

o tempo todo assim

provando a vida pelo lado ruim

 

assim eu vou indo

nesse escuro labirinto

mesmo falando a verdade

não interessa

pras autoridades eu sempre minto

sempre a mercê dos mercenários

suportando os mandatários

o sistema carcerário

vendo naufragar

o meu sonho de operário

vendo se esvair

a minha força de trabalho

e ainda tenho que percorrer cantando

e ainda tenho que seguir sorrindo

pelas alamedas do calvário

 

o tempo todo assim

provando a vida pelo lado ruim

 

 

Ronaldo Rodrigues

 

Escrito por Ronaldo Rony/Ronaldo Rodrigues às 14h18
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