a coisa pública


27/12/2007


OUTRO CONTO DE RONALDO RODRIGUES

 

DOIS MINUTOS APENAS

 

Estou em meu quarto, o lugar em que passei a maior parte de minha vida. Na mesa à minha frente, numa caixinha de música, uma bailarina repete suaves movimentos mecânicos.

O quarto fica no segundo andar da casa. No térreo, desenrola-se uma grande festa. É o casamento de meu irmão mais velho.

 

 

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Meu irmão é mais velho por um pequeno espaço de tempo. Dois minutos apenas. Sempre mais rápido do que eu, essa foi sua primeira vitória, das muitas que se seguiram. A vitória de maior impacto acontece neste exato momento, nos compartimentos do térreo e nos jardins por onde os convidados se espalham.

A festa deve estar efervescendo. Meu irmão é considerado, com total justiça, o portador da alegria. Certamente, está sorrindo para todos e abraçando aquela que será sua para sempre. Ela deve ostentar o seu melhor sorriso, já pensando em atender aos pedidos que fazem os convidados.

 

 

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Os dois minutos que me separam de meu irmão são um abismo intransponível. Sua vida sempre foi intensa, rodeada por muita gente, pela turma do colégio e da nossa rua, pelo círculo familiar, onde ele, com seu temperamento jovial, ocupava o centro de todas as atenções. Enquanto eu, sombrio e esquivo, passei a vida confinado neste quarto, mergulhado em mim mesmo, longe de todos e em total silêncio, assistindo na distância a simpatia de meu irmão, escondido para não ser ofuscado pelo brilho de seu carisma.

Quando ele me revelou sua decisão de casar, chegou mais radiante do que nunca e logo percebi que vinha anunciar mais uma vitória. Falou de sua nova namorada. Linda, serena, altiva, de inteligência invulgar, tão bem-humorada quanto ele e que tinha uma paixão extremada pela dança.

 

 

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Neste momento, imagino, a festa atinge seu ápice. A feliz bailarina se apronta para atender aos insistentes pedidos de seus convidados. Irá dançar como só ela é capaz. Com a mesma graça que me prendeu a atenção quando a vi pela primeira vez, dois minutos antes de meu irmão conhecê-la e também se apaixonar. Dois minutos apenas.

Dou corda na caixinha de música, coloco algumas balas no revólver e o aponto para o ouvido direito. Fico olhando a caixinha de música soprando vida na bailarina até que a corda acabe.

 

Escrito por Ronaldo Rony/Ronaldo Rodrigues às 17h05
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VAI UM CONTO DE RONALDO RODRIGUES

 

A NOITE DOS PEIXES

 

A Assembléia Extraordinária convocada pela Grande Ordem dos Peixes não foi atravancada por discursos prolixos ou questões de ordem burocrática. Terminou em poucos minutos, como os Peixes optando por uma tomada de decisão frente aos atos praticados pelos Pescadores.

Foi elaborado um manifesto em que os Peixes reclamavam da violação de um antigo pacto firmado pelos ancestrais de Peixes e Pescadores. O pacto celebrava a harmonia entre ambos os lados e determinava a proibição da pesca de filhotes muito pequenos e de fêmeas grávidas.

Em seu manifesto, os Peixes sugeriam vários caminhos para a conciliação, mas deixavam clara a intenção de invadir a aldeia caso os Pescadores não fizessem valer os itens do pacto.

Na tarde daquele mesmo dia, o mar levou até a praia o envelope timbrado da Grande Ordem dos Peixes. O Chefe dos Pescadores, obrigado a interromper a sesta para ler o manifesto, ficou com o humor ainda mais azedo.

O manifesto foi lido, entre um bocejo e outro, e logo o Chefe dos Pescadores desatou a rir estrepitosamente. Suas gargalhadas se multiplicavam à medida que os outros Pescadores tomavam conhecimento do teor do manifesto.

Em meio àquela onda de zombaria, sem conter as gargalhadas, o Chefe enfiou o manifesto no envelope, escreveu displicentemente que Peixes não escrevem manifestos, e o devolveu ao mar.

 

 

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No dia seguinte, os Pescadores voltaram a violar o pacto. Ao retornarem da pescaria, trouxeram em suas redes, entre os Peixes adultos, que era lícito pescar, uma grande quantidade de filhotes pequenos e fêmeas grávidas.

Os Peixes ficaram convencidos de que não adiantaria qualquer esforço para evitar o confronto. Reuniram-se rapidamente, formando um numeroso exército, e conceberam um plano de ataque para aquela noite.

 

 

 

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Na aldeia, os Pescadores faziam uma grande festa, comemorando o sucesso da pescaria, e não perceberam um estranho rumor se elevando pouco a pouco. Os Pescadores só puderam ouvir quando o rumor se transformou num barulho ensurdecedor, que ultrapassou as ondas sonoras lançadas pelos alto-falantes que animavam a festa.

Os Peixes vieram navegando pelos ares e o atrito de seus corpos com o vento era o que produzia aquele barulho, anunciando um trágico desfecho.

Os Peixes continuaram sua marcha, investindo contra tudo e todos, derrubando portas, destroçando paredes, derrubando casas.

Enredados pela violenta tempestade de Peixes, os Pescadores corriam de um lado a outro da aldeia na vã tentativa de defender suas famílias e propriedades.

Após alguns minutos de ataque, que aos Pescadores pareceram horas, os Peixes voltaram ao mar, deixando na aldeia uma trilha de sangue e destruição, onde se retorciam corpos agonizantes.

 

 

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Ainda hoje, decorridos muitos anos, se escuta na aldeia-fantasma o lamento de dor que os Pescadores deixavam escapar, tentando salvar seus filhos pequenos e suas fêmeas grávidas.

 

Escrito por Ronaldo Rony/Ronaldo Rodrigues às 16h57
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24/12/2007


 

Bibiana, compreendemos a ternura que há nas entrelinhas.

Ana, o poeta teve uma pequena briga com a vida. A vida perdeu, mas o poeta também não ganhou.

Kiara, a esperança é a última que se mata é ótimo.

Escrito por Ronaldo Rony/Ronaldo Rodrigues às 11h21
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VOLTEI!

Uma semana de molho, mas estou de volta (ou de ida?). O certo é que estou são (talvez não salvo). Depois da turbulência vem a ambulância (brincadeira). Vou agora mesmo responder aos comentaristas deste humilde blog. Axé! Shalom! Salamaleicum! Feliz natal e essas coisas que se diz nesta época. Yeah!!

Escrito por Ronaldo Rony/Ronaldo Rodrigues às 10h57
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