me sinto alegre/triste
como quando chega um poema
pulsam em minhas veias
velas do barco que singra/sangra
meu oceano de plumas
como chegar o poema
se minha aurora cor de sangue
agora desbota minha pele?
como se o copo de vidro
que guarnece meu coração
agora trincado
se despede do trilho
que um dia o levou ao abismo?
me sinto alegre/triste
como se viesse o poema
do lado de lá da seta
que aponta o buraco no muro,
promessa/dúvida de fuga
eis que chega o poema
entre a buzina feroz dos carros
que farejam o desastre
os estilhaços dos óculos
tateiam o labirinto da cegueira
a escuridão será o guia
dos olhos da multidão?
eis que o poema se faz
em gotas de suor, de lágrimas,
em sombras no asfalto
da cidade sitiada
por alamedas enigmáticas
o poema se foi e ficou
me deixando na ilha
em que o deserto fez seu ninho
continuo triste/alegre
e o poema mancha a manhã
na voz dos galos




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