ainda agora
fez-se o dia
fez-se de fetiche
fez-se fibra
fez-se ninho
fescenino
no ventre da manhã
casulam sonhos
consomem-se os pães
da enlouquecida aurora
hora após hora
após eras
e a nuvem na espera
na porta da caverna
onde à tarde arde a primavera
- árvore incendiada em teus cabelos –
entre o enfurecido tráfego
trêfegos afagos no espinho
do concreto das esquinas
onde brilham cacos
desgarrados de esperança
a noite se anuncia
no cio das tormentas
a cinza da água
que banhou meu rosto
é levada
elevada pelo vento
pesadelos se desmancham
sob as luzes da cidade
crescem arbustos no meu peito
singro e sangro
este destino
desatino
que me joga ao abismo
dos braços dessa correnteza
provocada por teus pés na névoa
a madrugada vem recolher
os despojos de uma inglória guerra
e cobrar o imposto
sobre cada gota de veneno
que desceu pela goela
Augusto Moreira




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